quarta-feira, 10 de junho de 2009

O Interior e o Exterior



Ville Savoye - Le Corbusier
Analise Interior & Exterior

FT. 01 - Fachada da Ville Savoye
A Villa Savoye (Ft. 01) é uma obra do arquiteto Le Corbusier (1887-1965), trata-se de uma residência projetada e construída entre 1928-1929 em Poissy - França, na região parisiense. Inicialmente foi pensada para ser uma residência de fim de semana para um casal com um filho. O projeto leva em seu caráter moderno a síntese integra de Le Corbusier para o “novo modelo” de arquitetura, enfatizado em 5 pontos principais:

1 - Pilotis, que tem como função liberar o edifício do solo, criando um espaço publico e seguro de intemperes;
2 - Terraço jardim, torna as coberturas “usufruiveis” e habitáveis;
3 - Planta livre, maior diversidade dos espaços internos;
4 - Fachada livre, possibilitada pela separação da estrutura e a vedação, possibilitando a máxima abertura das paredes externas em vidro.
5 - A janela em fita, que também foi possível pela separação entre estrutura e vedação, e se trata de longas aberturas que cortam toda a extensão do edifício, permitindo iluminação interna uniforme, e vista para o exterior.

O projeto encontra-se afastado da cidade, rodeado de paisagem natural. Então, Le Corbusier tenta partir de um cubo que se eleva, sustentado por pilotis, permitindo um vão livre que ele aproveita como garagem e usos para funcionários. A casa em concreto armado, é toda pintada de branco, e as janelas em fita se apresentam ao exterior como aberturas verticais que rasgam todas as quatro fachadas. Apesar das aberturas de vidro, o interior não é revelado, ficando ainda um suspense com relação a organização espacial da casa (Fg. 02).


FT. 02 - Vista da Fachada da Ville Savoye

O vão , possibilitado pelos pilotis, também pode ser entendido como um espaço intermediário entre interior e exterior, já que não existe uma divisão entre o que é publico e privado. A lógica racional do modernismo de Le Corbusier, está presente na forma do térreo. A forma semi-circular foi pensada desta maneira, pois sua curvatura representa o raio mínimo que um carro precisaria fazer para estacionar na garagem (Ft. 03). A partir daí já se percebe que não se trata de um projeto onde tudo será obvio, as contradições entre exterior e interior são evidentes em vários aspectos.


FT. 03 - Raio de Curvatura determinante na forma do térreo.

Analisando as plantas (Ft. 04), observamos que a lógica formal do quadrado é perceptível no exterior, mas no interior ela se perde. Robert Venturi diz em seu trabalho Complexidade e Contradição em Arquitetura: “... a planta de Le Corbusier da Villa de Savoye exemplifica um acumulo de complexidades dentro de uma estrutura rígida”. Ou seja, o formalismo do quadrado não se reflete na distribuição dos espaços no interior, que se mostra mais complexo do que aparenta ser.


FT.04 - Plantas baixas - CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIA-LAS


Corredor estreito com área de luz natural ao fundo

O próprio Le Corbusier diz que: “o projeto desenvolve-se de dentro para fora; o exterior é o resultado do interior”, no entanto há uma certa contradição em suas palavras quando analisamos a planta da casa. O que percebe-se é que o arquiteto prende-se a uma forma quadrada (Ft. 05), e distribui os espaços dentro de uma forma pré-estabelecida, ou seja, sua idéia de exterior já havia sido formulada antes mesmo de definir o interior da casa.

O desenho externo do projeto, segue o formalismo básico de uma estrutura quadrada, e a primeira vista não parece haver surpresas e contradições entre o exterior e o interior. Enquanto o exterior da casa se apresenta de uma forma simples, o interior quebra esta lógica formal principalmente no primeiro pavimento e na cobertura. No térreo, Lê Corbusier estabelece uma diferenciação espacial, que conecta o exterior e o interior, mesmo sendo um espaço fechado e sombreado.
A lógica da planta também se quebra quando uma rampa central (Ft. 06) sugere uma simetria para quem chega pela entrada principal, e a escada sugere um acesso assimétrico ao da rampa, contrariando as expectativas e deixando a organização interna mais complexa.
As dimensões das circulações (sempre trabalhadas em escala humana e na lógica formal) que percorrem a casa,
definem larguras e profundidades variadas aos espaços além de distinguir espaço social e íntimo. Esta mesma relação Le Corbusier faz na fachada, já que apesar do vão aberto do térreo simbolizar uma área “publica” os usos lá contidos são privados e de serviço (garagem, quartos de empregados).

Foto da escada assimétrica em relação ao acesso principal

Vídeo Tour 3D na Ville Savoye: http://www.youtube.com/watch?v=-9sEc4ndhEc



MUBE - Museu Brasileiro da Escultura - Paulo Mendes da Rocha
Analise Interior & Exterior

O MUBE, Museu Brasileiro da Escultura, surgiu após um concurso publico para um projeto de Museu em resposta a proposta da contrução de um shopping. O arquiteto selecionado para o projeto foi Paulo Mendes da Rocha, que oito anos depois viria a vencer o Prêmio Pritzker 2006. O arquiteto fez algo bastante singular para o museu, pensando-o como uma continuidade urbana. Paulo Mendes, a todo tempo faz referencia à cidade, seus monumentos e suas praças.

A sua percepção exterior é de que realmente a cidade continua ali no museu, já que logo na entrada o visitante é recebido com uma praça com um marco, e o museu propriamente dito no sub-solo. O marco trata-se de uma grande viga protendida em concreto (Ft.07) , e foi o primeiro elemento construído. A viga, é único elemento construído sobre o solo, ou seja, todo o resto do museu está abaixo do nível do terreno, fazendo com que todo o espaço abaixo da viga torne-se um vão livre, mais parecido com um espaço publico. Assim, o marco é o portal de entrada do museu, além de ser abrigo para manifestações artísticas escultóricas e acervo cultural, além de ensaios teatrais e recreação.

Ft. 07 - Marco da praça

As praças, espaços amplos, espelhos d'água transmitem a ideia de cidade, e faz com que a ideia de interior e exterior se perca. A verdade é que não se sabe distinguir ao certo o que é interior e exterior, já que há exposições nas praças, atividades culturais ao ar livre, e vãos livres em ambos os ambientes (externo e sub-solo) ver Ft. 08, Ft.09 e Ft.10


Ft. 08,09,10,11 - Interior x Exterior

Ao trabalhar com o museu no sub-solo já percebemos que a intenção de Paulo Mendes da Rocha era fazer um dialogo exterior e interior desconecto. Embora o interior seja no sub-solo a ideia de grandiosidade do espaço, e de escala urbana não se perde. Dentro do edificio as áreas também são grandiosas e espaçosas, como podemos observar nas plantas (Ft. abaixo).

A vontade de Paulo Mendes da Rocha de conectar interior com exterior vem desde o inicio do seu projeto. Segundo ele "... Muita gente não sabe que há um Ceschiatti na Praça do Patriarca ou onde está o Fauno de Brecheret no Parque Siqueira Campos. Então, oportunamente, se fará manifestações que possam se ocupar esculturas da cidade de São Paulo onde elas estão, e, evidentemente, exposição de peças trazidas prá cá com programação e significado, relacionadas com fatos históricos ou acontecimentos oportunos de ponto de vista da crítica, do ponto de vista da oportunidade" . Importante mesmo, foi o efeito arquitetonico que esta vontade sua expressou na sua obra, uma intriseca relação entre exterior e cidade.

Visualmente este efeito é facilitado com a utilização do concreto armado protendido, e a utilização da pedra portuguesa nos pisos (mesmo material das calçadas publicas) criando um aspecto semelhante ao da cidade de São Paulo. Para rebater esta aridez, Paulo Mendes utiliza enormes espelhos d'água que poderiam muito bem estar em Brasilia, pelo efeito que causam na edificação.

Analise Comparativa

Ville Savoye & Museu Brasileiro da Escultura

Ambos arquitetos procuraram apropriar-se da paisagem para propor uma arquitetura de relação entre interior e exterior. No primeiro caso, Le Corbusier, em meio a uma paisagem natural eleva a Ville Savoye em pilotis para nivelar vegetação e casa, criando uma relação de alturas. Já Paulo Mendes da Rocha, utiliza a paisagem urbana como principio de continuidade para o MUBE, fazendo a noção de interior e exterior se perder, em meio a cidade.

MUBE - vista da escada interna

O concreto é o material em comum às "arquiteturas", na epoca uma tecnologia em evolução com Le Corbusier, e uma tecnologia difundida para Paulo Mendes da Rocha (que faz uso do concreto protendido). Os arquitetos tem mais coisas em comum do que incomuns, tanto Le Corbusier como Paulo Mendes da Rocha pensaram as edificações de uma forma racional, porém ambos tiveram concepções diferentes no interior e exterior.

Ville Savoye Foto varanda de acesso ao terraço

Enquanto Paulo Mendes da Rocha aplicou o conceito de áreas espaçosas e amplas, tanto internamente quanto externamente do Museu da Escultura, Le Corbusier parece ter se prendido demais a forma cubica, e isto não se refletiu no interior da Ville Savoye, que se mostrou uma distribuição complexa dentro de uma simples forma arquitetonica.